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Hellas Verona: marca de que?

Salve, amigos do Esquadrão Interativo.

Talvez não seja sabido da maioria de vocês, mas eu tenho formação publicitária e especialização em maketing. Justo: sou marketeiro (no melhor sentido que a palavra pode ter).
Um dos conceitos mais caros do marketing foi escrito pela dupla Al Ries e Jack Trout, em seu célebre livro “As 22 Consagradas Leis do Marketing”: o marketing é uma batalha de percepções e não de produtos. Assim sendo, de acordo com o pensamento dos próprios, o maior diferencial, em marketing, é representar uma palavra ou conceito na mente de quem vê uma marca.
Os clubes de futebol são marcas. Marcas que representam autênticos patrimônios de sentimento para seus torcedores e ameaças para os rivais (afinal, elas contêm tudo o que eles negam: são oposições aos clubes para os quais torcem). A construção da marca de um clube é feita por seus resultados, sua história e seu patrimônio, tangível e intangível.
Tracei essas linhas rápidas sobre marketing e marca para fazer uma pergunta a vocês: quando vocês pensam no Hellas Verona Football Club, vocês se lembram do que?
Talvez do scudetto (e como esquecê-lo, não é?) conquistado de forma quase inacreditável, na temporada 1984-85. Outros lembram daquele time que complicava a vida de todos os grandões no Bentegodi, em Verona. Outros, ainda, têm na cabeça sua torcida, e o grande afeto que dedicam ao clube, mesmo agora, que visitam os estádios da 1^ Divisione da Lega Pro.
Muita gente, porém, lembra-se de racismo e descriminação territorial.
Na Itália, o racismo é um problema muito profundo, que ficou praticamente enraizado quando o então ditador Benito Mussolini leu e proclamou as leis raciais (uma página, realmente, muito triste da história do bel paese). Não só: em seu período no comando, a Itália declarou guerra à Etiópia, país do continente africano – por lá, chamado de Il continente nero.
O problema territorial, então, tem causas ainda mais remotas. Antes de ser um país unificado, a atual Itália era ramificada em vários reinos e repúblicas, que, devendo competir por espaço e buscando natural expansão, eram inimigas. Se por um lado essas antigas rivalidades territorias criaram um autêntico sentimento de nativismo e defesa da cidade ou região natal, por outro, fez com que as demais cidades e regiões sofressem menosprezo e se tranformassem, quase instantaneamente, em um referencial qualificatório de seus habitantes.
Assim, o Norte ficou inimigo do Sul; o Leste, do Oeste; e as capitais, entre si e das demais cidades das províncias; e assim por diante.
O futebol não é mais que um termômetro da sociedade em que se desenvolve. As rivalidades e a história são levadas para as arquibancadas pelos torcedores e, mesmo que tenha-se notado uma sensível melhora de conduta, volta-e-meia nos pegamos a falar desse tipo de situação pelos lados da Bota.
A torcida do Hellas Verona é um patrimônio com o qual muitos presidentes de clube sonham à noite. Sempre com mais de 10 mil presenças em casa e numerosíssimos em jogos fora de Verona, para os butei vale de tudo para desestabilizar os adversários e fazer com que os gialloblù triunfem. Pelos ídos dos anos 1970 (1971, para sermos mais exatos) criaram as Brigate Gialloblù, seu grupo de ultra’ que tinha o seguinte lema: “Soli contro tutti” (Sós contra todos). Exibiam, ainda, uma fixa com os dizeres: “Noi odiamo tutti” (Nós odiamos todos).
Com seu estilo inglês de torcer, a gente do Hellas ficou famosa por radicalizar em todas as suas exaltações ao clube. E, constantemente, viu-se envolvida em casos de racismo e descriminação territorial.
Sobre racismo, vem-nos em mente o mais recente episódio, acontecido no jogo contra o Andria, nesta temporada, em Verona. Um jogador africano (não sei de qual país) do time pugliese, Sy, foi o autor de um gol e, logo depois, usou de catimba pra parar o jogo (recurso não muito esportivo, mas que faz parte do contexto de quem lida com a “gorduchinha”). A torcida do Verona, irritada, insultou-o com coros; alguns dizem que eram racistas, como se imitassem macacos; outros dizem que se tratava do tradicional coro “Morte, morte, morte”, que a gente do Hellas grita apontando com os polegares para baixo, em referência ao que faziam os antigos imperadores romanos no Colosseo.
Racismo ou sarcasmo, o Verona foi penalizado com uma multa. Multa de um tipo que já vimos o Verona pagar, pelo menos, nas últimas três temporadas, justa ou injustamente.
Territorialmente, são muitos – e históricos – os insultos a muitas cidades e seus habitantes e torcedores dos times de lá – estes, sinceramente, não surtiram multas, mas uma má reputação flagrante que impede os torcedores do Hellas de seguirem o clube em certas cidades e regiões.
Foi pensando nisso tudo, tendo em vista que a torcida é parte do patrimônio do clube e tem o poder de redefini-lo constantemente, que o presidente do Hellas Verona, Giovanni Martinelli, fez o seguinte apelo:

Comunicado aos torcedores gialloblù.
Em referência aos episódios de descriminação racial ou territorial realizados por uma minoria de torcedores.
VERONA – Em conseqüências às sanções recebidas, o Hellas Verona Football Club e, em primeiro lugar, o presidente Giovanni Martinelli, pedem a máxima colaboração a todos os torcedores que seguem a equipe gialloblù.
A sociedade scaliegra recorda que as intempéries, em forma de coros (“buh”, declamados para jogadores de cor ou outros) ou escritos, que tendem a suscitar discrimações raciais ou territoriais – feitas, de todo o modo, por uma minoria de torcedores – serão severamente punidas pelo Tribunal Esportivo. Convida-se, portanto, a torcer pelas cores do Hellas com correção e respeitando a todos, de modo a não permitir a existência de pretextos que que penalizem o clube, seja do ponto de vista esportivo que econômico. As multas depreciam a mais que centenária parceria veronese, subtraindo recursos fundamentais para a gestão operacional e criando uma reputação negativa, que deixa em segundo plano os fatos puramente esportivos.

O racismo nos estádio é um elemento que será eliminado, com o máximo empenho, também porque conduz a aspectos não representativos dos valores do Hellas e do presidente, que adquiriu a sociedade, dando-a um futuro melhor. Para um clube de topo, com valores, moral e imagem, serve a colaboração de todos, de tal modo a não danificar os esforços feitos até este momento.

É bem verdade que, às vezes, é demonizando que criamos demônios, e problemas de racismo e discriminação territorial não são exclusividade do Hellas Verona; quem já viu os torcedores da Juventus gritando que “Bergamo e’ la Napoli del Nord” ou a torcida da Casertana gritar “Salerno odio”, sabe que o problema é nacional.
Mas Verona e o Hellas Verona levaram a fama. E representar um conceito na mente é um poder muito grande (lembram de Ries e Trout, no começo do nosso papo?). No caso do Hellas Verona, este conceito está se revertendo em publicidade negativa. Pior do que isso: é uma publicidade gerada indiretamente, ou seja, não vem da instituição e, por isso mesmo, é incontrolável e nociva.
Típico problema ambiental que se converte em problema de marketing. E, de problemas de marketing, já bastam aqueles que a categoria e a FIGC impõem a seus participantes.
Todos os que querem bem ao Hellas Verona precisam decidir como desejam que o clube seja visto. É impensável a alcunha de “clube simpático de uma cidade provinciana hospitaleira”; mas, intolerância não ajudará em nada os propósitos do clube de voltar a ser uma sociedade de força, dentro e fora dos gramados.


PS: o escritor desse artigo é um torcedor fanático do Hellas Verona, a quem a fama de torcida racista e descriminatória faz muito mal, pois tem absoluta certeza de que a generalização não corresponde à verdade.

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  1. André de Freitas
    outubro 26, 2009 às 2:14 am

    Muito bom texto,uma história que até então desconhecia,parabens,muito bom.

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